Tic-tac. O conceito de tempo a passar. Os meus desejos cruelmente escarrapachados nos actos dos outros. O sistema de retenção secundário débil a bater o pé.
Já era hora de eu me fazer à estrada, certo? Já todos o fizeram, já todos o planearam, já todos saltaram o muro e andaram. A história engraçada: fui eu que inventei o muro. Agarrei na minha pá e nos meus tijolos, no papel azul e no lápis e concebi e desenhei e construí semelhante engenho de teste. Ora, aí está: o muro era somente para testar capacidades. Nunca tive o intuito de o transformar numa barreira - para meu grande espectáculo destrutivo - e acabou por se tornar a medida de todas as coisas que limitam ou barram o caminho dos outros. E como a história nunca é como se queria, ensinado pelos clássicos de finais brilhantes, onde os bons ficam ricos e bonitos e são amados e tudo têm e os maus são isto e aquilo e são exilados para sabe-se-lá-onde, eu próprio caí sobre a área da retaguarda, duma altura tal que as faculdades de levantar-se e caminhar à volta dele já não são o que costumavam ser.
Mas eles ganharam inteligência. Subiram, fizeram-se gente, ganharam nome, ganharam fama e fizeram. Fizeram tanto e tão grande que, para um simples cavaleiro rejeitado por seu meio de transporte, os paradigmas inverteram-se. Agora são eles no topo, não atiram pedras nem calhaus como dantes se fazia nos tempos pré-muro, mas rejeitam-me neste absurdo canto que chamam de "minoria". Felizmente para os que residem nestes lugares, que trataram de se juntar em grupos e afins, aquela virtude que é cada vez mais testada na nossa pessoa não estica.



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