03/12/2010

faísca

Não me posso comprometer a proferir mais mentiras. Não é possível ser são sob esse julgamento.
É um assunto complicado, sobre o qual me pronuncio - o paradoxo de ser tudo e mais alguma coisa e acabar por ser nada - mas nada me pode impedir de tentar, ao contrário de certos eventos restritivos ao longo do dia. A minha premissa nos últimos 15 anos? Criar uma impostura intelectual sem precedentes. Alguns planos deram certo, à custa de integridade e relacionamentos interpessoais que muitos anos mais tarde viria a saber serem vitais para a normalidade, conceito que vou utilizar porque, secretamente, acredito-me nele. Sucintamente, a janela de oportunidade para tal abriu-se, e numa transacção sem ética, entrei nesse plano um tanto absurdo, manchado por ideias de grandeza. Como a referência dita, "isto não é como o clube de campo, não se pode sair assim de repente", e portanto certas preocupações morreram atropeladas pela torrente de ambições contínuas e supérfluas que se foram instalando. E lentamente as noções de alma ou sentimentos são coisa do passado, porque assim o quis o acaso. E a lei do acaso acaba por ser soberana, pois só assim o poderia ser, tal é a quantidade de acasos que se atropelam para ser, assim o vejo.

Portanto estou preso num falhanço inescapável. Embora tenha produzido resultados inúteis, na minha óptica, tais como provas de inteligência ou de talento dúbias, apenas serviu para se aprisionar a si próprio, tal a sua capacidade de inferência. E a inferência que um faz tendo em conta os eventos é alvo de imensas variáveis. Quem está bem na vida, imediatamente aponta que a minha perspectiva não faz sentido. É que, enquanto que vejo as coisas dum modo menos superficial e mais subversivo, este tipo de indivíduos são aqueles que vêem factos e pontos objectivos. Isso é inútil! Não precisamos de mais dados, mas sim de pontos de vista semelhantes.
Quando um se encontra com o tal ponto de vista correspondente, urge o período de tempo em que ele instantaneamente destrói a compreensão graças à incoerência que inevitavelmente vai proferir, mais paradoxal que um universo alternativo, que continuará a deitar abaixo as ideias do sucesso. Se voltam a dizer-me para esperar pela fortuna, talvez perca a paciência de uma vez por todas. Porque não o fim?
Está sempre, sempre próximo, sinto-o em todo o lado. Porque não acaba com a impaciência e o infortúnio de esperar, a apatia de tudo?

É mais importante ainda perguntar porque é que quero estar sozinho e acompanhado? Eu detesto pessoas, faz algum sentido procurá-las mais evidentemente.
Afinal, se é que há resposta, quantas mais vezes vou ter de fazer aquele olhar breve e sequioso ao indivíduo ao canto da sala, sob a pretensão de dizer algo falsamente relevante ou engraçado a outrém, para perceber que já estive aí inúmeras vezes e que nenhuma delas produziu algo palpável?
Qual é a perversão sadomasoquista que me faz regressar a este estádio de protocooperação degradante em que, sem sobreaviso, sou mais uma carta gasta do baralho de alguém? O que estamos aqui a jogar? Estou apenas a servir de história de cautela para incautos, ou há alguma falha relevante subjacente a qualquer interpretação da minha comunicação exterior?

O que estou a fazer de errado? O que estou a fazer de bem? O que não estou a fazer? O que devem os outros pensar? Excede-me, tudo isto, toda a questão que tem de ser colocada, porque não me satisfaço com qualquer resposta ou conhecimento que tentem inculcar, porque não quero saber de nada enquanto quero saber tudo.

Excede-me grandemente e com impotência soberana a despreocupação que os tontos têm por tudo, e a acessibilidade que lhes é garantida prontamente pelas vias do acaso. É uma ferramenta para os proteger de si próprios? Como tal, pois não têm noções nem preocupações (oh, que coisa tão perfeita e profundamente errada ao mesmo tempo) nem têm que as ter em primeiro lugar, tudo se lhes dá sem pensar. Que vontade reprimida e ressabiada, frustrada e enlatada, condensada num calhau negro de irritações contínuas que crescem numa grande raiva, de lhes partir a cara! Que coisa tão falsa! Que impostura tão injustiçada! Que ódio tão inflamado! Que ausência de clareza de espírito! Que eclipse da razão que estes filhos da puta me toldam a visão!

Será altura de parar de reflectir e apenas fazer? E que tal vender por completo qualquer ideia de personalidade e unicidade a favor de alguma felicidade dos parvos? No meio de tanta subversão voadora, até parece ser uma boa ideia. Qualquer coisa para me proibir de mim próprio e da combustão próxima! Sinto-me personificado por um punhado de pólvora, pronto a explodir e a sumir-se por completo numa névoa de poluição, quando a mínima fricção o condiciona!
Vou explodir! Larga esse fósforo, ó inútil, larga-o de uma vez por todas e deixa que todo o mundo observe impotente, ausente de espírito, eclipsado da razão a explosão e a combustão deliciosa dum punhado de pólvora inflamado. Larga e vê tudo a ser do mesmo, mais uma vez, no mesmo aborrecimento monótono do mesmo.

O mesmo, meus amores! É tudo o mesmo! O mesmo não muda! Que ideia tão perversa e retorcida. O mesmo, que não muda, sempre a ser imutável. É por isso que, talvez, a minha impostura deliberada e mais tarde fora de controlo, tenha falhado tão catastroficamente. Por ser sempre a mesma coisa gasta e imutável. Mesmo, não mudas por nada. O intento de sentir não é o mesmo, graças ao mesmo. O que me faz sentir não é o mesmo. Graças a ser tudo o mesmo, mudou para algo muito mais frágil e reverso. O mesmo impôs mudança!

Muda por mim, mudas? Muda-me, enquanto estás com a mão na massa. Muda tudo aquilo que não quero de mim, e talvez me aborreças ainda mais por não haver nada de errado depois! 

No meio duma ideia sem lógica alguma, todos os neurónios irrelevantes se atropelam para serem o mais relevante. Alguém lhes prometeu que um dia iam ser alguém. Que schadenfreude tão irónico e perverso! Quem teve essa ideia? Foi uma ideia perfeita! Que ia funcionar! Só que, evidentemente, algum gajo oriundo dum sítio onde a expressão e a intenção de saber e conhecer triunfam tudo mais o resto, acabou com essa ideia. Fez um golpe de estado ideológico. E de repente, as criancinhas que se acreditavam no Papai Noel são criaturazinhas nojentas e porcas que mancham a reputação que demorou décadas a construir dos seus progenitores!
Que coisa tão bonita! Ver a criancinha decadente e ocidentalizada a tentar destituir-se de todos os encargos!

Que coisa tão bonita! Ver a criancinha agora adulta, decadente e ocidentalizada a seguir o mesmo caminho dos carneirinhos! Que bela merda! O que aconteceu ao gajo oriundo das terras de saber e conhecer que destruiu a convencionalidade? Ou não me digam que o gajinho subversivo é um estratagema auto-conhecedor para a convencionalidade! Que perversão tão evidente! Como é possível nunca me ter recordado de tal? Quem foi o falso que se recordou disso, dêem-lhe um prémio por ser tão esperto!

Talvez mais tarde, a criancinha decadentista queira ainda justificar-se sob o jugo do cansaço! Talvez seja uma reversão de papéis. Que não acontece sem a quantidade de álcool correcta, devo dizer.
Homem do bar! Mais quatro caipirinhas! VAMOS CELEBRAR! WOOO! NÃO SEI O QUÊ, VAMOS CELEBRAR O MARASMO DEGRADANTE NO QUAL NOS METEMOS SEM SABER MUITO BEM COMO! VIVA! As quatro caipirinhas são para aquele gajo ali sentado aos berros, diz-se.

Talvez ela tenha passado por um casamento, no autocarro da decadência ocidentalizada. Casamento! Que engraçado, que giro, alguém genuinamente acreditar nessa perversão genial! Ei, ei, olha-me isto, vamos ficar juntos para sempre, para sempre, para sempre, vamos ser DEVOTOS DO ENCLAUSURAMENTO OBSESSIVO! Eu aceito! Vamos fazer sexo! Não, vamos fazer amor! Depois vamos fazer sexo degradante! Depois não vamos fazer sexo! Depois vamos viver juntos durante quarenta anos até morrer exausta de ti até à ponta dos cabelos, meu amor, porque tudo o que esperei da merda da minha vida é ter filhos, pequenas bestas que têm de ser cuidadas com apego e com muitézimos recursos que vais ter de te esfolar para obter, plebeu ignorante, e nunca mais ter sexo em toda a minha vida! Fazer pessoas ajoelhar-se diante duma cruz/estrela/direcção dum lugar/gajo gordo/ estatueta qualquer é genial em muitos aspectos, mas burlar o plebeu comum à tortura sem sexo nem poder animalesco castrante duma rotina sob o jugo do casamento? Alguém confira um prémio de prestígio a esse gajo! É mais inteligente que a instituição bancária, a televisão, o Estado, a democracia, o capitalismo, o totalitarismo ideológico e a manipulação em massa todos juntos! É o que os faz funcionar em toda a sua força e extensão! Que subversão fabulosa!

E talvez quando morreres, criancinha degradante decadente pederasta nojenta, irás para debaixo da terra ou para as cinzas. Fisicamente, porque o gajo espertalhaço que sabe mandar nas massas, o nazi das ideias, o Hitler das perversões todas e mais algumas, inventou o derradeiro plano para vos agarrar até no período póstumo. Reconheçam o céu! Não é uma atmosfera, segundo a ciência, cambada de impostores sem camisa nem clube nem decência, é para onde vão se se portarem bem! 
Sim, porque já gente que acredita nisto! OLHA SE TE PORTARES BEM VAIS PARA CIMA E TERÁS MUITA FELICIDADE, ETERNA COMO A PUTA DA HISTORIETA QUE TE CONTAM DESDE SEMPRE! Que perversão tão patente! Que historinha de merda que colou!

E só depois da vida inteira me ter passado à frente dos olhos, debaixo da exaustão completa de tudo, finalizo sabendo que a minha presença é irrelevante, inútil, injustificada, insubversível, trivial, e um dado adquirido, tão glorificado como o "milagre da vida".
Que perversão tão necrófaga! 

2 comentários:

  1. Uh-uh, palminhas, tanta raiva que saiu neste texto, adorei!

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  2. Ai que dor João, 11 a português? :O Mas o Reis é uma besta tão grande, não o curto mesmo nada xD
    O teste que tive de caeiro até foi facil, mais facil que o ortonimo ._.

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