O break-up. Momento falado em todos os filmes de comédia romântica de chacha. Uma abordagem mais inteligente e profunda que o mero sentimentalismo pode até ser encontrada, nos filmes mais complexos. Ponto alto, sobretudo, da venda de livros de ajuda para indivíduos com baixa auto-confiança.
Sem dúvida, não faltam instâncias deste assunto. Portanto porque raio vou eu falar sobre ele? Como é evidente, é porque sinto ter algo a acrescentar, independentemente de ser considerado minimamente relevante ou não pelos demais. Porque possuo uma experiência, em primeira mão e essas são sempre desejáveis para atrair as atenções e ainda as vertentes dos outros, cuja opinião não é, por minha parte, usualmente solicitada.
Recapitulando: quarta-feira, sensivelmente dois meses após o fim da relação (note-se que tal ocorreu por minha parte, o que é indicativo da alta probabilidade de esta não voltar a reinstalar-se), concordei em ir numa saída de amigos, às compras, com ele. O meu ex, para perspetivar bem as coisas.
Como usual, senti-me a forçar conversa, mecanismo perigoso a aplicar em alguém que agora está no patamar da amizade e com quem já tentei construir estruturas sociais importantes, como uma relação exclusiva à distância. Este é que é o ponto-chave dos meus problemas com ele - nunca soube comunicar na mesma linguagem. Quer a nível dos poucos interesses em comum ou ainda porque temos maturidades distintas, a comunicação foi morosa, pesada e sobrecomplicada. Ausente estava a fluidez que, em termos comuns, me caracteriza quando estou disposto a socializar com outros indivíduos.
Não foi necessário muito tempo para que, na estupidamente longa viagem de metro, me apercebesse de dois factos: a escassez de temas de conversa introdutórios (que não despoletaram, como as dinâmicas sociais usualmente se encarregam, uma conversa emparelhada e fluida) e o toldar dos meus padrões de objetividade.
Olhava a face dele e só conseguia pensar no quão atraente é, o quão simpático conseguia ser, a maneira como me observava ao início, quando certamente havia maior atração mútua. Senti-me ligeiramente ruborizado, ritmo cardíaco em ascensão. A emoção, que aprendi a suprimir publicamente, ganha uma nota de poder ligeira. Travei-a a tempo. Observei melhor o corpo dele. O modo como as pernas dele estavam praticamente em cima das minhas no metro, graças ao nosso porte acrescido e à proximidade entre assentos não me irritou, como usualmente faz com perfeitos desconhecidos que, intrinsecamente, desprezo.
Senti até uma reafirmação sexual. Eu quero isto. Eu quero isto, eu quero mais disto, quero, quero, quero, a minha mente ficou totalmente inebriada com este indivíduo. E é extremamente difícil fazer-me ficar assim, mas se calhar é o poder de, segundo estudos científicos, demorar cerca de 13 meses a deixar de gostar de alguém inteiramente após o fim duma relação. É uma bomba pronta a explodir com a tentação.
Anyway, todo este turbilhão demasiado hormonal para a minha idade provou-se o ponto alto. A partir daí, foi por água abaixo o resto do dia. Fizemos compras, que não consegui apreciar devido ao facto de estar sempre a retorcer-me na ideia de que não vou ter mais disto e que foi por minha influência.
Usualmente não me culparia tanto. Fiz isto, é verdade, mas depois consigo argumentar a minha decisão com pontos bastante convincentes. (Apesar de estar a injetar lógica numa área notoriamente vazia desta.)
Para mim, era inconcebível passar um dia sem lhe contactar - dantes ocorria isto. E era um aperto quase físico, uma sensação de negligência francamente injusta para ele, do modo como a coloco. Pensei que fosse mais resiliente. Já que ignoro os demais, pensei que tal pudesse aqui ocorrer, pensara. Enfim, não vale a pena remoer este motivo. Foi o que foi, simplificando, e não tem exatamente modo de se recompor.
Até porque, avançando um pouco mais nesta história que me propus contar e, para a limpar uma vez por todas da consciência, mais tarde apercebi-me do modo mais direto possível que afinal há uma alternativa, por muito distante que possa parecer inicialmente.
Fast-forward. Ao passar o metro na Trindade, ele sugeriu-me que podia sair logo para não demorar mais tempo. Na altura, findo o encontro, pensei que mais valia que assim tivesse sido. Na realidade, não foi assim que se passou, e ainda bem. Já explico.
Insisti em acompanhá-lo ao comboio, como fazia sempre dantes, quando ainda namorávamos. Quando chegámos, foi a coisa mais seca de sempre. A voz anuncia que o comboio dele está a chegar à plataforma. A despedida foi inócua - adeus. Virou costas tão depressa que senti-me, recorrendo ao sentimentalismo para veicular a minha história, como se o coração tivesse caído aos pés, absolutamente devastado. Perguntei, num último sopro de desespero absoluto, impregnado de medo e dor de cima a baixo, que meio minuto mais tarde iria explodir de vez, nem sei bem como ou porquê, desorientado: "Vais estar na net?" "Vou." E vira costas para apanhar o comboio.
A sucessão de eventos nos trinta segundos posteriores foi absurdamente incoerente. Nunca desmaiei anteriormente, portanto imagino que o processo que um sente antes de perder a consciência seja semelhante. Comecei a andar, devagar, sem um pensamento conciso, fazendo por fazer, com a noção devastadoramente honesta de que, provavelmente nunca mais lhe iria ver a cara de novo. Pensei no que perdi. Os bons momentos que, no ano passado, havia encenado ali, naquele mesmo local. Foi absolutamente devastador. Enquanto o comboio passava por mim, transportando talvez, na minha visão então toldada e inconsistente do sucedido, a única pessoa com a qual eu realmente me importei alguma vez.
Ao descer as escadas para atravessar para o outro lado da linha, tentei suprimir, mas desta vez não resultou. Não me lembro de alguma vez ter passado por semelhante cena tão frustrante, emocional ou humilhante (e o repertório do oitavo e nono ano é extremamente longo) e, sobretudo, tão pública. Não se pode desfazer num pranto em público. É certinho que se vai ser uma aberração de circo durante o tempo que as evidências físicas do crime social sejam notáveis. Os movimentos trémulos. A ocasional réplica das emoções. A fragilização constante. Um rubor, face manchada e olhos escarlates denunciam prontamente o que ocorreu. E ainda porque se sabe que quem calhe de notar a situação vai traçar, quase que diligentemente, uma historieta lógica que contextualize o espetáculo decadente. Inevitável, eu próprio o faço mal vejo indivíduos que não encaixem na massa sem nome nem voz.
O pior disto tudo foi ter acontecido enquanto obrigatoriamente tinha de apanhar o metro. Humilhação múltipla. Foi desconcertante em todos os sentidos. Odiei-me por não guardar o meltdown para instâncias mais privadas. Senti desprezo por ele, apesar desta reação ter sido produção inteiramente minha e ter estado sempre consciente desse facto.
Para impedir a continuidade do episódio, comecei furiosamente a contar coisas - é o que faço quando me quero abstrair das pessoas. Uma lâmpada, duas lâmpadas, por aí fora. Tentei verificar se correspondem aos números de Fibonacci. Andam lá perto, surpreendentemente.
O episódio amainou. Pela altura em que cheguei ao destino, já não havia evidência. Tive a chance de refletir nisto o caminho inteiro.
Desde quarta-feira ocorreram variações de humor insanas. Por momentos, sentia como se não pudesse viver sem ele, como se tivesse de me impregnar daquele vício, retomar à situação anterior que não me fazia sentir bem de qualquer modo. Um mártir por amor. Soa tão literário - é porque provavelmente essas coisas acontecem com muito maior frequência nos romances. Nos livros do Nicholas Sparks que me recuso a ler.
Não há também amores como os de 1984. Se houvesse risco para mim, eu fugia. Entreguei-o ao ministério do amor.
Hoje, para concluir a saga, parte oito mil quatrocentos e cinquenta e três, apercebi-me disto enquanto tomava a minha solitária bebida no terraço à noite, com a vista do Porto e arredores e as suas centenas de lâmpadas para me acompanharem: este acontecimento foi fulcral para marcar o fim do eu complacente e tolerante com as relações. Permitiu-me aprender o que vai acontecer de novo se não marcar muito claramente o que quero e o que posso tolerar nas pessoas. Hoje, funny thing, ele publicou mais qualquer dissertação indireta que, aparentemente, não era para mim (sim, perguntei previamente, quando ainda tinha aquelas saudades estúpidas e injustificadas). E cometeu um erro ortográfico absolutamente imperdoável. Pela primeira vez na nossa relação (talvez antes de o conhecer melhor, vá), isto irritou-me como qualquer outro indivíduo. Pensei qualquer coisa nas linhas de "burro de merda, não se escreve isso assim!".
Este foi o momento a-ha! que necessitava há muito tempo. Em que, inadvertidamente mas com certeza absoluta, agi como EU e não pintei de cores bonitas a realidade. Não toldei a visão, não reprimi críticas. Foi tão libertador, aplicar este conceito a mim e às minhas relações mais próximas. "Não se escreve assim, és infantil, não percebo como te dás com miúdos de quinze anos, não compreendo porque é que nada do que gosto não te interessa, porque é que tens medo de sair do armário, és um cobarde", uma litania de críticas em torrente! Injustas, desconexas, rudes, claro, mas honestas! Não tive vontade de ceder às suas vontades. Apercebi-me portanto do melhor: nunca devia ter tolerado este tipo de comportamentos meus em primeiro lugar. Sure, talvez assim nunca tivesse passado da primeira conversa com ele, mas agora esta epifania é fulcral para agir no futuro. É fulcral bater o pé e não ser intimidado por uma realidade falsa, criada pela mente desesperada, de que agir como eu próprio não vai materializar uma relação sólida. Errado: vai produzir resultados. Vai, sobretudo, fazer duma vez por todas com que encontre justamente quem preciso e na medida certa. Assim espero ter dado fecho a este capítulo longo demais da minha vida.
Finalmente concluo que não preciso dum transplante rejeitado.



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