O último post foi a 26 de junho de 2014, será que estas coisas têm um ciclo qualquer previsível? Either way, este post vale por um ano de silêncio - e espero começar a escrever estas coisas mais vezes antes que seja internado numa sala branca almofadada.
Vá, estes devaneios são terapêuticos, se calhar não tanto com o caráter público que assumem num blog (isto soa tão 2007), mas se não fosse por isso não estava para aqui a debitar letras.
E liguei a playlist da "dor de pito", parte integral da dicotomia de estilos musicais de acordo com uma antiga colega minha. O sono, fora pela janela. Auras de enxaqueca ameaçam arruinar este e o próximo dia com pura agonia, de epicentro o hemisfério direito do cérebro, atrás do globo ocular. Retornam as imagens do malfadado setembro que passou, sem falhar. Todos os dias, uma variação dos sintomas, à exceção do último, que se confirma já de natureza ritualística.
Pondero ajuda profissional no sentido de me resolver e perpetuar o caso durante mais uns tempos. Avenidas de tempo correm sob as vontades do que poderia ter sido e o pensamento definha circularmente. Custa demasiado fazer o que há que ser feito, custa igualmente manter a rotina como se nada fosse. This is it, chegámos ao pináculo da insatisfação (portanto, um vale, ignorando este devaneio) e há uma fenomenal vista, melhor que aquelas fotografias ameaçadoras de recônditos geográficos, em que na realidade não se vê nada para além do que se espera.
Nada disso é surpreendente ou conclusivo - constatações de cariz pessoal sem necessidade de justificações muito sólidas. No entanto, não posso admitir tal coisa publicamente sem uma boa injeção de botelhas de vinho, oh não! Impensável, c'est pas possible. Nem me atrevia a tal, convidar estranhos para casa supostamente é mau.
Mas o que é certo, sem bullshit generator, é que a minha situação atual é insustentável e aguarda uma espectacular explosão com direito a foguetes a sério e injúrias médicas sérias. Nada me satisfaz ultimamente.
Bens materiais? Nunca tive tantos como nesta altura da minha vida - são úteis mas não resolvem os grandes problemas. Relacionamento sólido? Supostamente, mas vamos mesmo por aí? Muito bem.
Há uns meses atrás, ele propõs partir caminhos. Estranhíssimo, pensei, mas compreendi. A rotina telefónica da distância é um excelente exercício de paciência, persistência e comunicação eficaz. E estava a roçar no absurdo - chamadas telefónicas de duas horas enquanto observávamos programas repetidos pela enésima vez, com poucos comentários a salgar a narrativa e ainda menos apurada a atenção ao conteúdo do outro interveniente. Más notícias para o paradigma romântico, vê-se claramente. Dessa perspetiva, até eu queria uma coisa melhor.
Mas isto coincidiu, surpreendentemente, com o anúncio da chegada dele à grande cidade. Senti-me quase tão frustrado como aconteceu com o outro, mas moving on. "Está bem, vens para perto de mim e queres estar com outros, o problema deve ser meu ou o caralho." Cue as fases da digestão de más notícias: negação, aceitação dúbia, meltdown nuclear, fúria, ainda mais fúria, cura lenta.
No momento em que revelou a sua intenção de terminar a relação, estava nervoso, mas admiti compreender os motivos e os objetivos. E agora, se me permitem acrescentar drama ao shitstorm de quase seis meses, apresento...
A Parte Em Que O João Faz Merda, I
, que essencialmente consiste em aceitar a pior, absolutamente nefasta e super terrível situação de amigos com benefícios. Não funciona. Não funciona. Tenho de repetir mais uma vez? Not working, no funciona, fodeu.
No entanto, não estava munido desse conhecimento valioso e aceitei. Essencialmente, permitindo-me manter as expectativas de uma relação normal, sem as valências da qual ela não se priva. Mas não há nada que se possa fazer quanto a isso, a minha libido continua descontrolada desde os 12 ou 13 anos, deve ser fruto dessa frustração resiliente de outrora (que agora volta para a vingança, oh well).
Os dias sucederam com um crescendo que terminou numa das fases da digestão de más notícias, a do desespero, em que propus uma relação aberta e ele sente-se forçado a aceitar. Full circle desta cagada total, aqui mesmo.
Um belo dia, quando ainda ia a casa dele (uma história menos melodramática mas alheia a esta, a razão do pretérito imperfeito), ele está a interagir com os Grindrs, Tinders, Fuckrs deste mundo móvel que nos envolve nas suas malhas digitais todas-poderosas. "Olha que giro, já usei isso há uns anos atrás. Deixa ver como é agora."
A Parte Em Que O João Faz Merda, II (isto está previsível, claro!)
É fácil compreender como isto é um erro, até porque estou mesmo a esforçar-me para que um qualquer leitor compreenda esta história, episódio alheio à sua vida ou interesses.
Nesta narrativa caralhística na qual eu aprendo lições valiosas que culminam na escrita deste post (até ver), deixei-me arrastar pelas expectativas dele (encontrar sexo casual com outros).
O problema já foi lançado: as minhas expectativas são extremamente similares às que tinha antes da bomba ter sido largada. Formalmente, as regras são mudadas, mas a nível prático, como ele ainda não havia tido um primeiro contacto fora da relação, tudo parece igual. Mas tenho a noção que posso "mijar fora do penico", apropriando-me desta grandiosa citação popular. O que é bom, right? Right??
E a urina encontrou-se posicionada fora do vasilhame cerâmico, devo complementar.
Antes disso acontecer, devo relatar um episódio poderoso que me fez voltar aos tempos da luxúria e inveja crónica: fomos a um aniversário de uma amiga em comum, na qual está um dos indivíduos mais atraentes (do tipo que eu e ele apreciamos entendidamente) que já conheci. Começa um pissing match invisível pela atenção do gajo, entre nós os dois, durante a duração do evento. Ele remata a noite com a melhor constatação de sempre: "Eu podia tê-lo comido se ele fumasse mais uns charros". Talvez seja por isso que deixei de fumar essas merdas entretanto.
Vamos ao derrame de fluídos corporais no chão. Usando as aplicações supracitadas, foi fácil encontrar pessoas para falar. Um deles fica na memória, acaba por despoletar conversa.
Estudante de doutoramento, partilha interesses comigo, procura relacionamento. "Oh, que nice! Eu também, sou o João."
Os dias passam e a conversa não mostra sinais de abrandar em interesse. Detesto conversa de chacha ou de interesses quando é muito forçada. Mas aqui não, puta que pariu, fluía com gosto e vontade. Sei que é bom quando tenho mesmo muito sono e continuo na conversa com alguém porque está a valer bem o meu tempo. Que satisfação, afaga todos os pontos certos. Mas a foto de perfil não me convence muito ainda. No entanto, fica uma questão subconsciente durante este tempo todo de contacto com uma pessoa nova: "eu já vi esta cara em algum lado".
Eventualmente, marca-se um encontro. Fico em casa do meu então namorado-em-relação-aberta, combinei à tarde e já consigo sentir a falta de confiança dele na minha nova aventura. No entanto, a minha cara deve ter exprimido algo nas linhas do "azar do caralho", visto que não consigo mesmo esconder expressões de desgosto da minha face.
Chego ao local e conheço o indivíduo. Ah, que saudades desta sensação! Incerteza, excitação, curiosidade mórbida. Até começo a ficar todo elétrico e saudoso a escrever isto.
Ele é bem mais alto do que eu, não tinha percebido isso pelas fotos. Nice. Mais envergonhado, nice, eu falo por três ou quatro se os planetas se alinharem.
Turns out, conhecia-o de o ter visto a passar na rua com o meu ex. Life is funny. Na altura não me atraiu, ou foi um sentimento de inveja mais poderoso a dominar a atenção.
Café e lanche, mais conversa, "vamos ao cinema". A caminho, num local menos conspurcado por olhares penetrantes, um beijo. Gostei. Determinação e interesse.
Não me lembro da premissa do filme, tal foi a luxúria.
Antes de ele se ir embora no comboio, vou para um dos meus locais preferidos da lista do "não me fodam a cabeça". Making out quase pornográfico. Sinto-me desejado, caução pela janela, we are young, etc.
Acaba o date, vou ao sushi com o então-semi-namorado e amigos. Aparentemente embebedaram-se, parte disso alimentada pelo meu evento de sucesso. Okay. Chegamos a casa do BF e ele faz uma provocação até aqui nova para mim: despe-se de modo mesmo óbvio à minha frente. What the hell, ainda não entrei em nada vinculativo com ninguém. É-me difícil controlar os impulsos carnais.
Passa uma semana e já nem sei o que estou a fazer da minha vida, tal é a obsessão com este novo ser. O meu então namorado-semi-whatever deve ter compreendido isto e as coisas começam a azedar do lado dele. Sinais de merda para vir, mas estava demasiado ocupado com a luxúria. Oh tão boa.
O set-up desta cagada não está no facto que aceitei ficar um fim de semana em casa deste indivíduo inovador na "cena". É extremamente previsível o que vai acontecer. I mean, descrevi o processo de amenização com o termo "pornográfico" por algum motivo.
A cagada em si também não está no facto que, no calor do momento, as precauções foram também pela janela (BTW, isto não se faz, lesson learned). Durante três meses pensei que fosse correr mal, e essa havia sido a cagada-mor. Mas não, tudo correu bem, nada anómalo.
O que, finalmente, me leva ao desfecho teatral ao qual queria chegar há meses e só agora consigo escrever consistentemente numa tentativa de não me prejudicar seriamente com intuito de não ver outro sol nascer.
A maior cagada que fiz foi ter medo desse erro cometido e não ter comunicado claramente.
E a partir daqui as coisas deprimem rapidamente e de uma maneira que não consegui lidar bem e que só tem causado temores e incertezas que literalmente me tiram o sono (devia estar a dormir agora mesmo).
Chego do fim de semana com o indivíduo. Admito ao meu então-BF-whatever-relações-abertas o que aconteceu, ele diz para fazer um teste, como é evidente. Meltdown total da minha parte. Voltei para ele e terminei o acordo de relação aberta.
Na altura, só precisava de conforto e satisfação. Mal soubesse o resultado do teste podia enterrar esta fase, certo? Podia terminar tudo de uma vez por todas, certo? Oh hell no.
Mal faço este acordo mando mensagem ao indivíduo a explicar o que acontecera.
Vou ser empático pela primeira vez na puta da minha vida e colocar-me no lugar dele: acabo de conhecer este gajo, estou interessado, convido-o e temos um belo fim de semana onde mal saímos de casa, tudo corre bem, há química e funciona bem. E não é que o gajo foi-se embora e vai voltar para o namorado?! Fui usado! Sinto-me como uma merda! Etc.
Desse modo, é fácil perceber o erro nessa altura. Podia ter lidado com as coisas de modo mais gracioso, em vez de queimar pontes. Mas o que está feito, está feito.
Era de esperar que cessasse por aqui o relato comentado dos acontecimentos emocionantes da minha vida amorosa nos últimos tempos, mas não. Porque há uma razão para estar a falar disto quase seis meses depois, enquanto devia estar a dormir. Porque não dá mais. Porque ainda não pensei noutra coisa com esta consistência e saudosismo.
A Parte Em Que O João Continua a Fazer Merda, III
12 semanas passam-se após eu ter largado a bomba ao indivíduo, faço o teste, tudo OK. Supostamente esta é a parte em que baixo a guarda e aquela voz incessante ao canto da cabeça silencia-se permanentemente. Afinal, a relação antiga continua e avança para os três anos.
E dou por mim, alguns tempos depois, como uma pessoa permanentemente insatisfeita com a sua vida amorosa e sexual, cheia de frustrações, amargando e tornando acre uma personalidade que não é definida, regra geral, por esses traços.
Esta parte corresponde ao intervalo de tempo compreendido entre o resultado do teste e o presente.
Compreendi, entretanto, vários factos. Primeiro, aprendi mais sobre o que gosto e o que não gosto numa relação a nível romântico e sexual. Segundo, coloquei a hipótese de estar satisfeito grande parte do tempo da relação porque simplesmente não sabia que havia melhor do que isso e sujeitava-me à ignorância. Terceiro, que certas coisas são irreversíveis.
Isso foi algo que disse a mim mesmo mal o BF largou a bomba. E sabia ser verdade, como agora mesmo sei que ainda é verdade. Não sei dizer se perdoei isso ou não, mas o sentimento de irreversibilidade continua presente em cada ínfima parte da minha interação com ele, cada vez mais escassa nos últimos tempos.
Descobri certas mentiras e meias-verdades dele, o que nem me surpreendeu nem me irritou demasiado. Eu escondo coisas frequentemente e não revelo os meus sentimentos por martírio ou outra razão pseudo-religiosa bacoca. A vida sexual esmoreceu. A minha atração física por ele decresceu largamente. Nota-se um esforço, muitas vezes, para fazer conversa (que, de experiências passadas, sei que se trata de um péssimo indicador da qualidade da comunicação entre pessoas).
No entanto, continuo aqui. Já quis terminar a relação duas vezes, numa delas sofri uma enxaqueca horrenda e voltei atrás; na outra pedi-lhe os meus bens pessoais de volta mas não avancei com isso. Tenho sempre pena dele, afinal de contas. Não consigo libertar-me desta relação que não está a funcionar há já muito tempo.
Mas se não fosse por ter feito merda estas vezes não tinha compreendido o valor das ações das pessoas e o impacto que as atitudes podem ter nos indivíduos em redor.
Não sei como proceder. Tenho receio de voltar atrás mais uma vez ou de me sentir ainda menos satisfeito com as minhas decisões.
Eu gosto do meu BF, é só que ainda não parei de pensar no outro gajo e isso está a dar cabo de tudo lentamente. A situação que fiz alusão prévia de já não ficar em casa dele não auxilia em nada.
Não me imagino a viver com ele, gosto do meu espaço e privacidade. Não vejo grande futuro, falando com toda a honestidade. E não estou necessariamente a pensar nele nos momentos mais íntimos.
E depois não tenho coragem para resolver isto. Insatisfeito constantemente, de uma maneira ou outra. Não faço ideia do que fazer a seguir - e é extremamente assustador.



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