"Pecando pela redundância, afinal de contas sabia muito bem que tipo de missão era essa. Carácter temporário, de pouca ou nenhuma relevância - o primeiro contacto foi, à falta de melhor termo, rotineiro - com poucas chances de reincidência.
Por algum motivo, decidiram ambos percorrer um caminho que sabiam fechado, à partida. A distância relativamente longa, à falta de mobilidade rápida, era mais um impasse. Perdido estaria, mais tarde a saber, pelas convicções de cada um. Porque é preciso dois para dançar o tango. Mas foram na mesma.
Surpresa surpresa! Ora não é o que eu penso que é - uma parede? Na qual a missão termina abrupta e dolorosamente, choque à parte. Pois claro que os meninos sabiam em que se iam meter, mas o que um deles não sabia era grandioso.
Ora, um deles não sabia que o outro não falava verdade por inteiro. Que as suas revelações interiores e de valor muito pessoal não encontraram eco. Um deles - o idiota que acabou por perder - ficou sem saber ao certo porque não seria possível continuar. A desconfiança ajudava à decomposição. Mentia-se, todos os dias, ao deitar e acordar e quaisquer momentos inclusive, que só amava verdadeiramente a ideia que o outro despoletava, tal a situação espelhada de solidão e introspecção forçada os tempos fez conjurar. Essencialmente, que não poderia amar a pessoa, apenas a ideia de amar alguém e ser recíproco. Tal falaciosidade e péssimo discernimento é irreconhecível na mente dum qualquer tipo aluado, fora de órbita por grandes motivos. Agora percebemos o porquê da separação final civilizada.
Mesmo desconfiado, tentou uma reunião com novos termos. Esta morreu após um curto período, visto que o poder da injúria já sofrida não havia mostrado sinais de esmaecer o escarlate e o rubor das suas faces, dias antes da conclusão trágica, numa mina de sofrimento e mais péssimo discernimento à mistura. Contudo, o falso civismo deste evento foi poderoso para ele."
Saltitando perigosamente perto da linha entre luto e ira, as memórias dos dois meses procedidos entre o par produziram efeitos menos previsíveis no sujeito. A sua intenção de terminar a sua curta vida, preenchida de desilusão e expectativas elevadas mostrava sinais de abrandar. Sendo substituída, desta feita, por novas expressões de dor de grau mais intenso.
O onírico do sujeito violentado por mais uma experiência falhada revelava, ao estilo freudiano de tudo dizer em metáforas e subjectividades, um misto de humilhação, desejo, ira profunda e desespero.
Transitoriamente, os pensamentos aleatórios na vida desperta do sujeito transformaram-se em explosões muito controladas e localizadas em áreas específicas da sua psiquê, jactos pouco potentes de súbita ira que, não obstante a natureza opressiva e um tanto uniformizante da sociedade em geral, tinham um efeito de descarga social. Este auto-controlo revelou imenso sobre o sujeito, claramente familiarizado com o trauma. Foi capaz de desenvolver tácticas de controlo de danos a nível mental.
"Não acaba aqui, Dr. Imaginamos que este tipo de técnicas não é patente aos humanos, pelo menos directamente."
"Deixe-se de exageros e concentre-se na análise psicológica em mãos. O estudo de caso não é uma oportunidade para testar os seus conhecimentos de bola de cristal."
Não fosse o fenómeno quase que mecanicamente preciso, não havia sinais de desconfiança.



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