06/08/2011

neutral, parte II

Quase tangível era a tensão dentro da antecâmara elaborada, algures nas entranhas muito bem guardadas do Comité. Não fosse por alguém decidir o destino da sua carreira nos próximos noventa minutos, até diria o Professor que o clima de tensão era derivado da pressão atmosférica, tal o complexo subterrâneo se estendia, por motivos de segurança apertada. Uma mesa larga deliberava, doze membros impecavelmente vestidos de traje cerimonial austero, ao comprimento da sala. Os candidatos ao Prémio de Revelação Científica aguardavam pisos abaixo, tendo a mais pequena vista do eleitorado de prestígio, composto exclusivamente das mentes mais apuradas da rede científica e de investigação. Uma clarabóia rectangular e restritiva permitia aos cinquenta e dois candidatos olhar para cima e observar somente as expressões faciais quase inexistentes dos doze. Uma espécie de sarcófago edificado de paredes de obsidiana com entalhes horizontais sucintos que iluminavam tenuemente a cena impunha-se em altura. Entre os cinquenta e dois esperançosos, o Professor aguardava pacientemente.
Displicentemente, como tinha sido hábito após o deslize de carreira para mero professor na universidade local, envergava o mesmo par de calças que havia usado a semana inteira, manchado brevemente devido à séria incompetência dos seus alunos com uma simples assemblagem de baterias-protótipo, numa das suas aulas que denominava de aborrecimento completo. A camisa datada pouco ou nenhum pensamento revelava sobre o grande evento. Aliás, a única pista à primeira impressão de que se tratava dum cientista reputável, merecedor da posição de candidato e não de um qualquer homem de manutenção técnica era a bata, adornada com um logótipo da universidade no crachá pendente do bolso. Tal despreocupação devia-se à condição de ter sido convidado pelos rivais da sua antiga investigação, a quem nenhum comentário lhes escapava para minar a performance do Professor enquanto lhes fosse permitido. Qual seria o mal de desencaixar dos moldes, pensara horas antes. Mais lenha para a fogueira, imaginara. Divertia-o a ideia de que um cientista tão conceituado e poderoso como ele estivesse a ser analisado por algo além do seu vasto intelecto. Algumas pessoas têm mau perder, concluiu, pois esse grupo de cientistas falhados evidentemente havia perdido nos anos anteriores no Comité, para seu grande júbilo. A malfadada mudança de carreira rebaixava a sua motivação e interesse pela pompa e circunstância da Revelação Científica, hora que aguardara sempre com pontualidade e esperança em tempos mais permissivos. Havia conseguido agora uma Revelação superior, tal tinha sido o resultado do seu último experimento, antes de ser despedido sem cerimónia, com psicologia e reconstrução de memórias. A hipótese de realizar um dos seus experimentos de modificação cerebral ainda pairava, fazendo viver a última motivação para assistir ao evento. Era, essencialmente, uma chance que podia ganhar de atravessar pelas maçadas burocráticas e legais e chegar ao grande húbris com que sonhava: compreender e controlar totalmente outro humano.
Sentia ardentemente vontade de seguir as suas experiências com o grupo original de cientistas. Necessitava deles, afinal haviam justamente conseguido isolar uma memória e capturar um pouco da árvore de pensamentos dentro da mente do sujeito de teste, antes de lhes ser cortada a energia de vez e, consequentemente, arrancado um pouco do coração de cada um dos cinco sociopatas à paisana dentro daqueles laboratórios ilícitos. Somente precisava de aguardar... mais um pouco. Sabia que estava ganho, pois nunca se deixara abater a nível profissional. Mesmo dando aulas, carregou turmas inteiras por investigações pertinentes. Nada como o projecto que levava a cabo, a sua musa, contudo merecedor de prémios sem sombra de dúvida. O que não residia ali mais era a sua electricidade contagiosa, a sua personalidade vibrante e comunicativa. Que se pode dizer? Não se tira o osso a um cachorro contente.

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